Viajando com Darwin pela Patagônia Chilena

Mais uma colaboração de Valéria Cunha, jornalista, fotógrafa e gerente de comunicação da JB & Associados, para nossa série de matérias sobre a América do Sul. Desta vez, ela narra sua viagem, literalmente, ao fim do mundo: a Patagônia Chilena.

No Fim do Mundo, pela rota de Darwin

Admito. Me encantei pelos passos de Charles. Pela aventura que viveu, pelos mares que navegou, por suas descobertas latinas, por suas teorias baseadas em laboratórios vivos, em nossas terras. Talvez, este sentimento esteja mesclado com o orgulho que sinto pelo nosso continente ter sido uma das rotas mais importantes de sua vida. Mas, como não deixar-se fascinar por alguém que experienciou lugares tão deslumbrantes?

Lembro que enquanto eu deslizava em uma escuna por fiordes no Extremo Sul do Chile, a poucos quilômetros do mítico Cabo de Hornos e ao lado do Canal de Beagle, a mercê de um conhecido vento gélido que encontrava o meu rosto e uma desafiável e insistente chuva fina, revivi, por apenas algumas horas, o trajeto de sensações e descobertas percorrido, há quase 150 anos, por um jovem naturalista, Charles Darwin. Naquele momento, rodeado ao longe por pampas e montanhas com picos cobertos pelo gelo, o silêncio que emana daquela beleza me levou a um estado profundo de admiração e curiosidade por uma longa história encravadas ao pé da Cordilheira dos Andes.

Mas, para contemplar quaisquer, dos mais exigentes, sentidos do ser humano e absorver toda aquela beleza, é imprescindível que qualquer viajante com rumo a este destino, tenha sede de cultura, amor pela natureza e capacidade de surpreender-se a cada milha navegada, a cada caminhada terminada. Pois o inóspito, a descoberta e a história estão nas coisas mais simples que encontramos na Ilha Navarino, como a calmaria das ilhas, o sopro forte dos ventos ou, então, os troncos úmidos e os impenetráveis bosques de carvalho alaranjados que decoram aquelas colinas, que rodeiam os bravos mares.

Ainda na escuna, lembro da sensação térmica que nos ardia à pele, e que se traduzia no aviso de que era a hora de desembarcar em Puerto Williams. Uma cidade que pertence à uma área de preservação da Antártica Chilena e sedia a municipalidade de Navarino. Hoje, o lugar é uma das 37 eco-regiões mais prístinas do planeta, que surpreende ao se tornar turístico, mas que mostra uma sociedade preocupada com o viajante, seu bem-estar, seus sonhos e curiosidade. Que forma guias com um conhecimento ímpar em arqueologia e antropologia para que seja possível uma pulverização da história aos turistas, com a maior fidelidade possível a realidade que se passou.

Sinta-se convidado para conhecer este lugar

Declarada Reserva da Biosfera pela Unesco em 2006, a região do arquipélago do Cabo de Hornos é um dos últimos territórios virgens do planeta. São 4,9 milhões de hectares, entre áreas marinhas e superfícies terrestres onde campos de gelo, geleiras, canais, cordilheiras, bosques, mangues, rios e lagos, junto a uma fauna, flora e riquíssima história e arqueologia que são uma verdadeira descoberta paisagística e cultural.

Inspire-se com as conclusões

Foi em 1934, que Darwin navegou a bordo do Beagle por aqueles canais, pela rota que circunda o local, na ponta mais austral do continente americano. E foi ali que visitou e estudou os nativos da região, assim como a fauna e flora. Impressionou-se com o fim do mundo e o chamou do deserto verde.

A rota é imperdível

Victory é uma réplica da embarcação de carga, de 1870, que Darwin viajou. E é nela que temos a possibilidade de reviver, a risca, o trajeto do cientista pela Cordilheira, içar velas e desafiar os mares austrais. Ir até aquelas águas e não navegar pelos os canais da Terra do Fogo é como ir à Nova Iorque e não ver a Estátua da Liberdade. A sensação é ímpar.

A experiência é única

O naturalista nasceu na Inglaterra em 1809 e foi o responsável, juntamente com Alfred Wallace, pela publicação da Teoria da Evolução. Mas, um dos marcos mais importantes da sua história foi a viagem a bordo no navio Beagle entre 1831 e 1836, na qual visitou diversas regiões do globo terrestre e teve condições de perceber uma interessante relação entre fósseis e espécies viventes na época e mecanismos de adaptação de espécies relacionados ao ambiente e modo de vida destes.

Mas foi em 20 de janeiro de 1833, que Charles Darwin, ao visitar a Patagônia como naturalista a bordo do H.M.S. Beagle, escreveu: “de madrugada, chegamos ao ponto onde o Canal de Beagle se divide em dois braços. Passamos pelo que encontra-se ao norte. A paisagem é grandiosa. As montanhas elevadas ao norte compõe o eixo de granito, ou o ponto de apoio do país, e está elevado a uma altura entre 900m e 1200 m, com a cume a mais de 1800m. Estão cobertas por uma capa de neve eterna e numerosas cataratas se esbaldam com as suas águas, no canal estreito. E é pouco provável imaginar algo mais belo que estes lugares. Os fragmentos que haviam caido dos glaciais na água flutuavam e o canal com os seus icebergs parecem uma miniatura do Mar Polar”.

Não perca o voo desafiante

Cabo Horn é o ponto mais meridional da América do Sul. Encontra-se na Ilha de Hornos, no arquipélago da Terra do Fogo, bem no finalzinho do Chile. Para chegar até lá e desfrutar da visão mítica é preciso voar. Um desafio emocionante para uma viagem que pode ser surpreendente.

As águas que envoltam o cabo e que podemos visualizar da janela do monomotor em voos rasantes, são agitadas. É possível ver de perto o ponto do encontro de dois mares gitantes, oceanos Atlântico e Pacífico. É bem verdade, que a região do Cabo Horn é mundialmente conhecida pelas tormentas, onde os ventos gelados da Antártica unem-se ao clima do continente, e que até há poucos anos, motivavam a afirmação de que sobre a ilha, o céu estaria sempre nublado. Reafirmando tais antigas teorias, em 1832, no livro “A Origem das Espécies”,  Darwin descreveu o encontro com este lugar:

“Parece que o Cabo Horn exige que lhe paguemos tributo… Apercebemo-nos envoltos em brumas e rodeado de um verdadeiro turbilhão de vento e água. Imensas nuvens escuras obscurecem o céu, as sacudidas de vento e granizo atingem-nos com tão rude violência, que o comandante se decide a abrigar-se.”

Não dá para perder a emoção de estar sobrevoando o fim do mundo!

Valorize a herança indígena

As características dos nativos da Terra do Fogo eram muito similares aos que povoavam a Patagônia. Entretanto, por tratar-se de um arquipélago rodeado por águas geladas, a maioria dos povos fueguinos não era constituída por caçadores e sim por pescadores. As tribos pescadoras costumavam sair em busca de alimentos em pequenas embarcações a remo que lhes permitiam navegar pelos canais e fiordes com relativa segurança, entretanto era necessário entrar na água para atacar as focas, presas favoritas pelo seu alto aproveitamento. As peles se utilizavam para revestir as embarcações, enquanto a carne era a base da alimentação. Curiosamente, utilizavam a gordura do animal para revestir o corpo e ter assim uma película que o impermiabilizava. Pois apesar do clima inóspito, os índios locais viviam nus. E dessa forma resistiam às baixas temperaraturas das águas locais.

Quando a expedição de Magalhães chegou à margem norte do Estreito, observou que na margem sul várias fogueiras permaneciam acesas dia e noite. A expedição ousou chamar as terras do outro lado do estreito de Terra dos Fogos ou Terra do Fogo. Não imaginaram que estavam batizando para sempre o arquipélago.

Não esqueça a lupa em casa

Se navegar não for um forte e o melhor é sempre se ter os pés bem posto na terra, não deixe de percorrer os bosques em miniatura do Parque Etnobotânico Omora. Uma iniciativa que envolve vários órgão de conservação e uma ONG de prestigio internacional. É possível neste passeio obervar algumas das 818 espécies de musgos, liquens e fungos que existem na região do Cabo Horn. Estes bosques são únicos no mundo. É difícil não se apaixonar por este paraíso vegetal  no fim do continente americano. Alem de ver literalmente com lupa espécies da vida vegetal de formas maravilhosas e complexas, aprendemos a distinguir os diferentes tipos de carvalho patagônico, como o coigüe, o ñirre e a lenga, ou a árvore sagrada dos nativos, o canelo.

COMO CHEGAR:

A TAM tem voos que saem regularmente de capitais brasileiras até Santiago do Chile. Ou você pode optar pela LAN que tem voos regulares a Punta Arenas, com escala em Santiago, a partir de São Paulo e Rio de Janeiro. A companhia aérea DAP voa regularmente de Punta Arenas a Puerto Williams.

ONDE FICAR:

É possível ficar em dos muitos albergues em Punta Arenas. Há diferentes opções de acomodação para indivíduos, casais ou famílias, com diárias começando a menos de R$ 20.

O QUE LEVAR:

É necessário levar roupa impermeável e, ainda, todo o material adequado para a proteção contra a chuva e o vento frio. Igualmente indispensáveis são toucas, luvas e botas para trekking.

Não dá para esquecer o protetor solar e labial, e óculos de sol. Aproveite para fotografar e fazer vídeos.

NÃO DEIXE DE VISITAR:

Museo Mar tín Gusinde – fone (61) 621043; Parque Etnobotânico Omora – http://www.omora.org/

NÃO PERCA:

O passeio na scuna Victory pela rota de Darwin e o bosque em miniatura do Parque Etnobotânico Omora.

 

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