Ilha de Páscoa, de mistérios e encantos

Continuando nossa série de matérias sobre destinos da América do Sul*, o jornalista e fotógrafo Jaime Bórquez nos conta sobre suas (muitas) viagens pela Ilha de Páscoa, no Chile. Seu relato certamente vai despertar a curiosdade e a vontade para conhecer este destino fascinante.

 

Os nativos a chamam por seu nome original, Rapa Nui, ou também falam de Te Pito o Te Henua, que significa o umbigo na língua nativa. Curioso emisterioso nome. Estive na Ilha de Páscoa pela primeira vez no início dos anos 80. O turismo era incipiente, haviam poucos hoteis, nenhum restaurante decente e as atrações principais – as misteriosas estátuas chamadas Moai – estavam descuidadas e em perigo de serem destruídas por turistas irresponsáveis, que desejavam carregar um pedaço da história para suas casas. Hoje, após 30 anos e mais de dez viagens à Páscoa, sinto que ela é

como o vinho de guarda, enquanto passa os anos, melhor vai ficando.

É incrível que numa ilha pequena – um triângulo de 12 por 12 por 24 km – a gente acabe se apaixonado tanto por paisagens vistas e revistas dezenas de vezes. É o meu caso: a ilha é como um imã que me chama a cada certo tempo. Mas há muitos que foram lá e acabaram sendo conquistados de vez, não querendo mais voltar ao continente.

Antes de iniciar a exploração

Eu gosto de liberdade, não me sinto bem em grupos nem quando me impõem horários. Portanto, se for este seu caso, recomendo alugar um carro e descobrir a ilha por conta própria. O que precisar saber dela está escrito em folhetos e livros.

Para tirar proveito da luz e fazer boas fotos, a posição do Sol é importante. Com um mapa na mão e respeitando os pontos cardeais, saiba que tudo o que estiver na parte Norte e Leste tem boa iluminação até o meio-dia. O lado Sul e Oeste são mais bonitos à tarde, até o crepúsculo, quando os raios do sol vão tocando, rasteiramente, rochedos e precipícios, colinas e crateras, deixando tudo magicamente amarelado.

A praia de Anakena tem bom sol o dia todo, mas a de Ovahe só é bem iluminada entre as onze da manhã e às quatro da tarde.  A ilha não possui um clima próprio, e com observação simples qualquer turista vira um expert no tema.  Se as nuvens carregadas estão na parte leste, opte pela direção contrária. Este macete não falha.

Uma paisagem de filme

Um bom começo é visitar o vulcão Rano Kau, no extremo Sul da ilha. Serpenteando por suaves ladeiras, o caminho conduz ao topo do morro, de onde se tem uma paisagem espetacular da cratera, de 1,5 quilômetro de diâmetro e 200 metros de profundidade.  Na elevação sudoeste da cratera, numa estreita planície, uma antiga civilização ergueu uma cidadela de pedra. É a aldeia cerimonial de Orongo, onde durante a primavera se desenvolviam rituais na espera do primeiro ovo do pássaro sagrado, o Manutara, a andorinha de mar.

O filme Rapa Nui, produzido por Kevin Costner, relata essa e outras cerimônias. É bom vê-lo antes de ir até Páscoa. Em várias das cenas há pinturas rupestres adornando as paredes Daí, onde se observam as ilhotas ou Motus, de Kao Kao, Iti e Nui e a amplitude do oceano é tão grande que se tem a sensação de estar vendo a curvatura da terra.

A aldeia termina numa ponta da cratera, onde uma fina parede impede que o vulcão se esvazie no mar. Nesse lugar, as rochas estão cheias de petroglifos que mostram os ”homens pássaros”, ou Tangata Manu. Ali, o arqueólogo noruegués Thor Heyerdalh descobriu um observatório solar que marca com perfeição o equinócio de inverno e de verão, um dos inúmeros mistérios da ilha. Sempre é bom conversar com os guarda-parques do lugar.

Os Moai são a maior atração

A Ilha de Páscoa é vigiada pelos Moai, essas pétreas estátuas que estão por todos os cantos de seu pequeno território. A quase totalidade dos Moai está olhando para o interior da ilha, salvo os sete do Ahu Akivi, que olham para o oceano.

O mais visitado monumento funerário é o Ahu Tahai, perto do povoado de Hanga Roa. Quem já conhece Machu Picchu e Tiawanaku vai surpreender-se com a similitude desta construção. Os blocos de pedra de suas paredes estão dispostos com tal maestria que nas junções é praticamente impossível enfiar uma faca.

O ahu mais impressionante, porém, é o de Tongariki, no setor leste da ilha. Recentemente reconstruído graças a modernos e poderosos guindastes, este monumento funerário de 13 figuras gigantescas tem um poder de sedução imenso. Fica quase na orla do mar de uma baía, e justamente por isso sofreu mais do que nenhum outro ahu os embates das ondas gigantescas de até 12 metros do tsunami do 22 de maio de 1960,

produzido pelo terremoto ocorrido a mais de 4 mil km dali, na região chilena de Valdivia. A força destrutiva do mar jogou por terra o megalítico monumento e varreu com as águas mais de um quilômetro da baia. Hoje o Tongariki é o orgulho dos rapanui.

Mas é a visita ao vulcão Rano Raraku que dá a visão real do trabalho titânico que significou a construção dos Moai. Este lugar é chamado de “canteiro de obras” pelos arqueólogos. Em suas paredes rochosas foram esculpidas as gigantescas estátuas que se espalham por toda a orla da ilha.

Os Moai têm uma altura que varia de seis a 20 metros. O maior de todos está inacabado: mede 23 metros e seu peso é estimado em 400 toneladas. Nas paredes interior e exterior do vulcão há 397 Moai terminados e na fase inicial de construção. Espalhados pela ilha, nos caminhos e nos ahus há mais 490, num total de 887 estátuas.

A teoria frequente para explicar o transporte é por meio de troncos, sobre os quais os Moai deslizavam. É uma boa teoria, mas choca-se com o fato de que a ilha nunca teve árvores de grande porte nem em grande quantidade. As escassas árvores que há agora foram plantadas neste século. E o nativo tem outra teoria: os sacerdotes antigos tinham uma força natural, chamada de Mana, que fazia os Moai levitar até seu lugar de destino. Detalhe interessante: as estátuas eram transportadas antes de que se terminassem os olhos. Somente no lugar que estas eram instaladas, se terminava o trabalho. A lenda diz que isto era feito para que a estátua não soubesse o caminho de retorno ao seu berço, o vulcão Rano Raraku.

Vamos a la playa

Mas nem tudo deve ser arqueologia, também é bom dar uma refrescada. Minha recomendação é ir em uma das duas únicas praias da ilha, Anakena. Tem areia branca e fina e suas águas têm uma transparência tentadora. É um bom ponto para passar o dia, aproveitando as instalações que há ali, seja bebendo suco e comendo nas barraquinhas ou fazendo piquenique, aproveitando as mesas, bancos, churrasqueiras e sombras.

A outra praia chama-se Ovahe. É menor que Anakena, tem areias rosas, ondas e certa correnteza. Está protegida por uma alta parede rochosa, a mesma que lhe faz sombra no começo da tarde. Perto dalí está Te Pito Kura, uma pedra  redonda de tamanho considerável, obviamente trabalhada há centenas de anos. Ela tem um magnetismo bastante acentuado, ao ponto de alterar o movimento de uma bússola. Seguindo a tradição rapanui, eu sigo o ritual de por as mãos na pedra, fechar os olhos e me concentrar em três desejos que quero que se tornem realidade. Não custa nada tentar.

Outro passeio que não dá para perder é subir até o monte Terevaka, o ponto mais alto da ilha, de onde se tem uma visão dela em 360 graus e mais uma vez parece que percebemos claramente a curvatura da terra. Este é muito provavelmente o único lugar em toda a ilha onde é fácil perder a trilha do retorno. Não invente caminhos, suba e desça pelo mesmo lugar. Conselho de quem já se perdeu por lá!

Dentro da gastronomia, não deixe de experimentar o ceviche de atum e o típico curanto no buraco, um cozido de peixes, carne vermelha, porco e frango, além de batata doce e outras verduras cozidas embaixo da terra com lenha e pedras quentes, cobertas por folhas de bananeira. Um banquete inesquecível. Mas para provar esta loucura de sabores é preciso fazer amizade com os nativos: não há ainda restaurantes que preparem isso ao estilo rapanui, no chão mesmo.

Uma visita à Ilha de Pàscoa é uma experiência fascinante, um mergulho no passado longínquo, cheio de enigmas. Será muito díficil que as visitas não relacionem Páscoa aos mistérios das pirâmides do Egito, as construções de Machu Picchu, aos templo de Tiwanaku, Teotihuacán, ou as figuras de Nazca, embora esteja provado que a ilha foi habitada desde o começo por nativos polinésios. Parece existir um cordão que une todas estas civilizações que marcaram a evolução do homem. Esse cordão pode ter tido uma coligação aqui, em Tepito o Tehenua, claro, no Umbigo do Mundo.

 

Saiba mais

AHU AKIVI – Na língua dos nativos, ahu é o local sagrado onde ficam os moai. Akivi é o único que tem sete figuras olhando o mar.

AHU DE TONGARIKI – O maior da ilha, foi restaurado recentemente. Seus 15 moai tinham sido derrubados pelo tsunami de 1960. As pedras planas das redondezas têm formas de atum, tartaruga e outros animais.

AHU VINAPU – Impossível não relacionar essa construção com a cultura inca. As paredes têm pedras enormes perfeitamente trabalhadas e encaixadas uma na outra.

ALDEIA DE ORONGO – Ali era escolhido o novo rei da ilha. Ganhava o título por um ano quem pegasse um ovo de andorinha nas ilhotas da frente de Páscoa e o trouxesse a nado sem quebrá-lo- As casas de pedra se conservam até hoje, e a paisagem é incrivel.  Estrada Vulcão Rano Kau s/n, das 8h30 às 18h, US$ 8,50 (dá direito a entrar também no vulcão Rano Raraku e em todos os locais cuidados pela Corporação Nacional Florestal do Chile.

CAVERNA ANAKAI TANGATA – Ao entardecer, as ondas rompem nas rochas da entrada e brilham na contraluz. A lenda diz que as figuras do teto foram pintadas com sangue humano.

PEDRA TE PITO KURA – Oval e avantajada, foi feita pelo homem rapanui há séculos. A energia do lugar deixa maluca a agulha de qualquer bússola. Os visitantes costumam botar as mãos na pedra para pedir coisas boas.

PRAIA DE ANAKENA – O mar é quente e quase sem ondas. Há mesas, churrasqueiras, banheiros públicos e sombra de coqueiros. A poucos metros dali há um ahu restaurado com figuras de lagarto na parte posterior.

PRAIA DE OVAHE – Pequena, tem areia cor-de-rosa. É preciso tomar cuidado com a correnteza e as rochas debaixo das ondas.

VULCÃO RANO KAU – Chega-se ali por uma trilha de suaves ladeiras. O mirante, quase no fim da caminhada, proporciona uma paisagem incrível. Ao pés do visitante há uma cratera de 1,5 km de diâmetro.

VULCÃO RANO RARAKU – A pedreira onde se talharam os 887 moai. Muitos deles não foram concluídos e continuam na parede. Um tem peso estimado de 400 toneladas. Outro, menos estilizado, está de cócoras. Dentro da cratera há uma lagoa cristalina ótima para banho.

 

Onde ficar

 

Veja a lista de albergues e pousadas – Ilha de Páscoa. Há opções de preços a R$ 50 em quartos compartilhados ou menos de R$ 70 para quartos privativos. Se quiser estender sua viagem pelo país, confira as muitas ofertas de albergues no Chile.

 

Onde comer

MI CUERITO REGALON – O melhor da ilha. Não repare na decoração kitsh. O dono, Rolando Leiva, é cozinheiro, atendente, caixa, garçom e grande contador de piadas. Os pratos são generosos e os preços, em conta. Experimente o rape rape, parente acanhado da lagosta – Atamu s/n 551232 – Seg-dom 12h-15h e 18-22h.

PEA – Na praia de Hangaroa. Tente ir ao pôr-do-sol e experimente o sashimi de atum, peixe farto na região. O serviço é demorado, como quase tudo na ilha – Av. Atamu Tekena esq Tu’u Maheke 100382 – Seg-dom 12h-15h e 17h-22h.

LA TAVERNE DU PECHEUR – A cozinheira, de mão cheia, é mulher do proprietário, um francês encrenqueiro clone perfeito do Obelix. Ele faz questão de salientar que possui o restaurante mais caro da ilha. – Caleta dePescadores Hanga Roa s/n – Seg-dom 12h-15h e 19-23h.

TAVAKE – Os nativos o indicam como a opção gay da ilha. Restaurante, pub e café muito simples, tem cozinha caprichadíssima. – Av. Policarpo Toro s/n 100300 – Seg-sab 12h-15h e 17h-24h.

Onde agitar

ALHOA – Um barzinho para o fim de noite, com iluminação perfeita para namorar. O atendimento é nota dez, coisa difícil na ilha. E os preços não são extorsivos – Policarpo Toro s/n – Seg-dom 11h-24h ou mais.

 

Onde comprar

MERCADO ARTESANAL – Vende a arte da ilha, como a talha em madeira e pedra e colares de conchas e corais. Os preços são salgados, mas a pechincha é um esporte muito praticado  – Aldeia de Hangaroa s/n Seg-dom 10h-13h e 17h-19h.

 

Não deixe de fazer

Um mergulho na ilha mais misteriosa do mundo é uma experiência única. O campeão de apneia, o pasquense Mike Rapu, leva você até lugares que ele tem descoberto em anos que leva explorando a ilha. Outra opção é sair com Henry Garcia, ex-tripulante do mítico Calypso, do Jaques Custeau. Um lugar imperdivel é mergulhar perto das ilhotas Motu Kao Kao, Iti e Nui – Mike Rapu Diving: 551055 || Orca Henry Garcia: 100375 – ambos ficam na Caleta Hanga Roa s/n

 

Mais informações:

www.rapanui.cl

www.sernatur.cl

www.turistel.cl

 

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